O Brasil no domínio do Surf! Como um país sem títulos se tornou a maior potência do esporte
Desde que Duke Kahanamoku popularizou o surf no início do século 20, o esporte se espalhou por todo o mundo. No entanto, as maiores potências sempre foram três nações; Austrália, Estados Unidos e Havaí (nas competições de surf, o Havaí é considerado um país).
O começo do circuito mundial
Esse amplo domínio começou com os australianos na década de 1970 e 1980, no período, Mark Richards, uma lenda do esporte garantiu quatro títulos mundiais nessa época. O circuito mundial começou em 1976 e até 1990, a Austrália já tinha 10 títulos na categoria masculina.
Ano | Campeão | País |
1976 | Peter Townend | Austrália |
1977 | Shaun Tomson | África do Sul |
1978 | Wayne Bartholomew | Austrália |
1979 | Mark Richards | Austrália |
1980 | Mark Richards | Austrália |
1981 | Mark Richards | Austrália |
1982 | Mark Richards | Austrália |
1983 | Tom Carrol | Austrália |
1984 | Tom Carrol | Austrália |
1985 | Tom Curren | Estados Unidos |
1986 | Tom Curren | Estados Unidos |
1987 | Damien Hardman | Austrália |
1988 | Barton Lynch | Austrália |
1989 | Martin Potter | Reino Unido |
1990 | Tom Curren | Estados Unidos |
O cenário começou a mudar a partir do final da década de 1980, quanto Tom Curren chegou vencendo dois títulos consecutivo e mais tarde seu terceiro e último já em 1990. O novo período foi produtivo para os norte-americanos que saborearam das glórias seguintes do maior surfista da história, Kelly Slater.
O efeito Kelly Slater
Simplesmente imbatível, esse era Kelly Slater na maioria das competições que disputava, seu primeiro título chegou em 1992 e logo depois venceu cinco temporadas consecutivas de 1994 até 1998, contabilizando seis títulos mundiais em sua galeria e elevando os Estados Unidos na década.
Depois disso, Slater cansou das competições e resolveu se aposentar, retornando anos depois para rivalizar com o havaiano Andy Irons e Mick Fanning da Austrália.
Ano | Campeão | País |
1991 | Damien Hardman | Austrália |
1992 | Kelly Slater | Estados Unidos |
1993 | Dera Ho | Havaí |
1994 | Kelly Slater | Estados Unidos |
1995 | Kelly Slater | Estados Unidos |
1996 | Kelly Slater | Estados Unidos |
1997 | Kelly Slater | Estados Unidos |
1998 | Kelly Slater | Estados Unidos |
1999 | Mark Occhilupo | Austrália |
2000 | Sunny Garcia | Havaí |
2001 | C.J Hobgood | Estados Unidos |
A nova geração desafia Kelly Slater
Embora o Havaí seja uma das nações com mais tradição no surf, isso não se refletia em resultados até a chegada de Andy Irons, que aproveitou o espaço deixado pelo aposentado Kelly Slater para vencer três títulos mundiais consecutivos de 2002 até 2004. Vale lembrar que Slater ficou parado de 1999 até 2001 e retornou no primeiro título de Irons.
Andy foi um dos maiores rivais de Kelly e um dos principais motivos de seu retorno, assim como Mick Fanning e Joel Parkinson, a nova geração de atletas causou um desejo de superar os desafios em Slater, que voltou para vencer mais cinco títulos mundiais, o último deles em 2011.
Enquanto rivalizavam com Kelly, Mick Fanning e Joel Parkinson também venceram seus títulos mundiais, o primeiro garantiu três taças, enquanto o segundo apenas um troféu em 2012.
Ano | Campeão | País |
2002 | Andy Irons | Havaí |
2003 | Andy Irons | Havaí |
2004 | Andy Irons | Havaí |
2005 | Kelly Slater | Estados Unidos |
2006 | Kelly Slater | Estados Unidos |
2007 | Mick Fanning | Austrália |
2008 | Kelly Slater | Estados Unidos |
2009 | Mick Fanning | Austrália |
2010 | Kelly Slater | Estados Unidos |
2011 | Kelly Slater | Estados Unidos |
2012 | Joel Parkinson | Austrália |
2013 | Mick Fanning | Austrália |
A nova era e o começo da tempestade brasileira
Depois de todo esse contexto de domínio dos surfistas internacionais principalmente da Austrália, Estados Unidos e Havaí, surge a pergunta e o Brasil?
Afinal, como um país com as dimensões e costa litorânea como o Brasil poderia não tinha nomes nessas disputas? A verdade é que o Brasil sempre teve seus surfistas na elite mundial, Pepê Lopes marcou seu nome na história do circuito vencendo um evento Rio de Janeiro em 1976, ano de estreia do circuito.
Outros nomes com o passar das décadas foram se destacando no esporte; Daniel Friedman, chegou a vencer um evento na Austrália diante da lenda Mark Richards, Fábio Gouveia, Peterson Rosa, Jojó de Olivença, Teco e Neco Padaratz e Victor Ribas foram atletas de destaque do Brasil, Ribas inclusive bateu na trave do título mundial, terminando como terceiro melhor surfista da temporada de 1999.
Todos esses nomes e mais alguns serviram para pavimentar o caminho para a nova geração de atletas no início dos anos 2000, que chegaria como uma grande tempestade.
A ‘Brazilian Storm’
O resiliente Adriano de Souza foi o nome mais constante no circuito mundial nos anos 2000. Logo em seguida, chegaram outros atletas como Jadson André, Gabriel Medina e Miguel Pupo.
A expressão ‘Brazilian Storm’ começou em 2011, em um evento da divisão de acesso nos Estados Unidos. A lenda conta que o narrador da etapa percebeu uma presença gigante de brasileiros nas chaves avançadas do campeonato e criou o termo que os atletas do país chegavam como uma tempestade. Por coincidência, Miguel Pupo venceu aquele evento, com Jessé Mendes e Thiago Camarão parando nas semifinais.
Ainda em 2011, um garoto de apenas 17 anos chocou o mundo do Surf. O jovem Gabriel Medina chegou ao circuito mundial e assombrou a todos após ganhar duas etapas em seu ano de estreia entre os melhores surfistas do planeta.
Três anos mais tarde (2014), Medina se consolidou ainda mais e fez história ganhando o primeiro título mundial do Brasil no esporte com apenas 20 anos de idade.
Sua conquista abriu portas para os surfistas do país acreditarem que era possível e logo no ano seguinte, Adriano de Souza também ergueu a taça de campeão no final da temporada.
Com dois campeões consecutivos, a tempestade brasileira mostrou que era realidade, Filipe Toledo, Italo Ferreira e outros atletas também entraram no circuito e as bandeiras do Brasil se tornaram constantes nos eventos das temporadas seguintes.
A dominância do Brasil
Após os títulos de Gabriel Medina e Adriano de Souza, os brasileiros viram duas temporadas consecutivas do havaiano John John Florence sendo o campeão mundial, ainda que muitos achassem os resultados injustos, já que Medina bateu na trave com alguns resultados questionáveis de arbitragem em 2016 e 2017.
O domínio brasileiro era passageiro? A tempestade era tropical e logo se dissipou no ar? Não! Gabriel Medina retornou mais forte em 2018 para erguer seu segundo título. No ano seguinte, Italo Ferreira e Filipe Toledo evoluíram ainda mais e brigaram pelo troféu que acabou em uma batalha épica.
Italo Ferreira e Gabriel Medina chegaram até o último evento de 2019 na praia de Pipeline no Havaí brigando pelo troféu. Na ocasião, os brasileiros ficaram em chaves opostas e a cada round um tropeço seria o fim da disputa. No entanto, os dois avançaram todos os confrontos superando a pressão e se enfrentaram na decisão.
Na grande final, um confronto de proporções épicas que garantiu o primeiro título de Italo Ferreira e também uma mudança no formato da World Surf League, a entidade que comanda o circuito mundial. De fato, a decisão em uma bateria direta entre Medina e Italo elevou a audiência da WSL em ótimos números.
https://youtu.be/oCoAMHPg10o?si=zcEv_NsQaHI0k_sa (título de Italo Ferreira)
Em 2020, o circuito mundial foi adiado por conta da Covid-19 e só retornou em 2021, já com seu novo formato, estabelecendo um evento único com os cinco primeiros do ano decidindo o título da temporada em baterias de confronto direto.
Novo sistema? Sem problema para o Brasil
O novo formato não foi um empecilho para os atletas brasileiros conquistarem mais títulos. Em 2021, Gabriel Medina se tornou tricampeão mundial e nos dois anos seguintes (2022 e 2023), Filipe Toledo garantiu a taça, sendo o primeiro atleta do país a fazer isso em temporadas consecutivas.
https://youtu.be/rgqicgjjhXc?si=_wC_NOaVwZ4sELWe (Terceiro título de Gabriel Medina)
https://youtu.be/uh2QBFF3V08?si=TtQK8O_B2_TQFLWF (Primeiro título de Filipe Toledo)
https://youtu.be/Srp0wj1dJs0?si=Bh8RGN3Y8THop5bP (Segundo título de Filipe Toledo)
Ano | Campeão | País |
2014 | Gabriel Medina | Brasil |
2015 | Adriano de de | Brasil |
2016 | John John Florence | Havaí |
2017 | John John Florence | Havaí |
2018 | Gabriel Medina | Brasil |
2019 | Italo Ferreira | Brasil |
2020 | Temporada interditada | Por conta do Covid-19 |
2021 | Gabriel Medina | Brasil |
2022 | Filipe Toledo | Brasil |
2023 | Filipe Toledo | Brasil |
Afinal, como o Brasil saiu de um país sem títulos para a maior potência do Surf?
Muitos fatores atrapalharam o surf no Brasil desde seu início, o esporte foi marginalizado por boa parte da sociedade e não existia uma cultura. A demora por gerações de filhos de surfistas demorou muitas décadas para enfim chegar. Filipe Toledo é um exemplo, já que seu pai, Ricardo Toledo, foi um competidor e chegou a ser campeão brasileiro de surf.
Além disso, a falta de estrutura e reconhecimento da mídia, o surf não é um esporte barato, requer viagens e equipamentos como uma prancha. Os grandes atletas sempre são patrocinados por boas marcas, no entanto, os desconhecidos acabam sofrendo por falta de incentivo e as vezes precisando manter suas carreiras com o próprio dinheiro. Se todos os fatores ditos acima ainda são empecilhos nos tempos de hoje, imaginem na década de 70 quando Pepê Lopes competia.
A surfista e jornalista, Tayná Souza Freitas, mostrou uma visão otimista sobre o presente do Brasil no esporte em termos de estrutura e patrocínios:
“Eu acho que isso tem sido superado com três coisas: o enfoque maior no esporte, que tem recebido patrocínios estatais, além do apoio dos próprios surfistas como o Medina, o Italo e o Filipe, que criam projetos sociais para incentivar a prática do esporte enquanto mantém as crianças e jovens no estudo. O público anda tendo uma visão mais positiva do esporte, deixando de lado aquela visão de coisa de "vagabundo" pra algo sério. As conquistas dos atletas brasileiros no cenário internacional têm aberto a mente das pessoas. A projeção é que agora cada vez mais atletas tenham acesso aos caros equipamentos. Que o esporte seja incentivado, que seja divulgada mais oportunidades para praticar o surfe. Mais atenção e mais mídia relaciona a mais patrocínio, e com dinheiro correndo, as portas se abrem com maior facilidade. Mais talentos são revelados e o investimento financeiro e de treinamento vem mais cedo”. afirmou Tayná.
Em seguida, o assunto foi a geração antiga brasileira, que não viveu muitos dias de glórias no cenário internacional do esporte:
“Acho que o Brasil sempre teve gerações de ouro, apesar de não ser algo tão antigo. Mas tem galera de peso desde antes, a gente está vendo a geração do Adriano de Souza começar a aposentar das competições principais, como o Panda, Willian Cardoso, mas antes deles a gente teve Teco Padaratz, Carlos Burle, Fábio Gouveia, entre outros. Os brasileiros só não tinham espaço e visibilidade, coisa que atualmente nós temos. Além do preconceito hoje ser abordado e reconhecido, o que é um passo para diminuir o impedimento de brasileiros no tour, além de notas polêmicas que hoje são discutidas e adereçadas”, disse a especialista.
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